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Entrevista com especialistas

Escrito por ASCOM | Publicado: Sexta, 12 de Maio de 2017, 16h30 | Última atualização em Sexta, 23 de Junho de 2017, 09h22

I Colóquio Luso-Brasileiro de Paleografia

foto paleografia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O I Colóquio Luso-Brasileiro de Paleografia, realizado no dia 11/05, no Arquivo Nacional, reuniu três dos maiores paleógrafos de Língua Portuguesa na atualidade, apresentando estudos contemporâneos sobre a Paleografia e suas mais diversas aplicações, tanto no Brasil quanto em Portugal. O evento foi realizado pela Câmara Técnica de Paleografia e Diplomática do Conselho Nacional de Arquivos e pelo Núcleo de Paleografia e Diplomática da UNIRIO.

Os professores Maria José Azevedo Santos (Universidade de Coimbra – Portugal), João Eurípedes Franklin Leal (IHGB / UNIRIO) e Marcelo Nogueira de Siqueira (Arquivo Nacional / UNIRIO) falam abaixo sobre o encontro.

ASCOM - Qual é a importância de se realizar o I Colóquio Luso-Brasileiro de Paleografia?

Professor Franklin - A importância do colóquio é fazer a aproximação entre as duas ações do conhecimento paleográfico, já que os nossos documentos são comuns, fomos colônia de Portugal, somos uma continuação. Portugal tem uma Paleografia bastante desenvolvida e a professora Maria José é a maior paleográfa neste século, então queremos que isso seja uma forma de incentivar a Paleografia no Brasil.

O Brasil é o país da América Latina que possui o maior acervo de manuscritos e o Rio de Janeiro é a cidade que supera qualquer uma da América Latina em quantidade e qualidade de manuscritos, aliás a maioria deles estão no Arquivo Nacional. Também temos documentos manuscritos no Itamaraty, Arquivo da Cidade do Rio Janeiro, Arquivo do Estado, Arquivos Militares etc. Espero que esse evento seja o início de uma longa série que una o Brasil a Portugal.

ASCOM - O que é a Paleografia?

Professor Franklin - A Paleografia é uma ciência para leitura, transcrição e interpretação de manuscritos. Sem ela não teríamos vários documentos, como o Antigo Testamento. Ela não é uma mera cópia de um documento manuscrito, ela tem suas etapas, suas formas para facilitar e melhorar os problemas de uma escrita, às vezes difícil.

Para tratarmos um documento e fazermos a transcrição paleográfica de um documento, precisamos dividi-lo em três etapas: primeiro a leitura, etapa inicial. A Paleografia tem um método comparativo, nós comparamos as letras. Quanto maior o texto, mais fácil esse trabalho, pois teremos mais letras e palavras para compararmos. A segunda etapa é a transcrição. Ela é o objetivo central do documento. Escrever novamente o documento com as nossas letras, obedecendo a certas normas. Temos como objetivo dois pilares: respeito ao texto e ao autor do texto; e transformar o texto no mais inteligível possível, usando normas, sem modernizá-lo.

ASCOM - Que áreas do conhecimento ganham com o incentivo à Paleografia?

Professor Franklin - Precisamos muito do desenvolvimento da Paleografia, pois não se entende uma História que não seja baseada numa leitura correta dos documentos. A Paleografia não é somente para a História, ela é também ligada à Filologia, às Letras. Fiz minha pós-graduação de Paleografia na Universidade de Lisboa, num curso de Letras. Porque a Paleografia também mostra como filologicamente as palavras evoluíram, estão em constante movimento. Queremos que seja desenvolvido o entendimento de como ler um documento, como entender as palavras. As palavras mudam de significado. Algumas palavras mudaram de sentido, em outras o significado tem que ser procurado em dicionários antigos.

ASCOM - Como surgiu a ideia de realizar o Colóquio?

Marcelo Siqueira - A Paleografia é um assunto que vem ressurgindo. Esse I Colóquio teve como origem a ideia que eu e o Professor Franklin tivemos de fazer um evento que reunisse o pessoal do Brasil e de Portugal. É o primeiro evento de Paleografia no Brasil que está sendo transmitido ao vivo para o mundo todo. Um encontro como esse só dá certo quando várias pessoas ajudam e tivemos esse apoio. Gostaria de agradecer a todos que nos auxiliaram nessa realização. Esse evento vem sendo pensado há muito tempo pelos realizadores: o Núcleo de Paleografia e Diplomática da UNIRIO e a Câmara Técnica de Paleografia e Diplomática do CONARQ. O Arquivo Nacional sempre abriu as portas para eventos como esse.

ASCOM - Como é o ensino de Paleografia no Brasil?

Marcelo Siqueira - Praticamente inexiste uma formação na área. Poucos cursos possuem essa disciplina, que normalmente é dada em um semestre. Poucos são os profissionais capacitados para esse serviço e precisamos ter profissionais qualificados. Precisamos de manual didático para ensinar Paleografia, além de precisarmos de bibliografia, laboratórios, parcerias com universidades, arquivos, cartórios, museus; também é necessário incentivar uma produção acadêmica, divulgação, cursos de capacitação e eventos sobre esse assunto.

ASCOM - A Paleografia é um campo de estudo desvalorizado?

Professora Maria José - Para atrair meus jovens alunos à Paleografia e à Diplomática falo sempre que eles são os melhores alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, pois eles estudam ciências verdadeiramente ímpares. A Paleografia e a Diplomática são ciências, muitos querem nos dizer que é uma matéria prática, muito técnica, mas não, são ciências, criadas em 1681, pelo D. J. Mabillon. São ciências absolutas e não auxiliares. Temos que ter muito orgulho, pois nós, paleógrafos, somos cientistas. As pessoas ignoram o que seja Paleografia e Diplomática, são ciências pouco conhecidas. Essa ignorância resvala para o desprezo, desvalorização e às vezes até para a chacota.

Ascom
12/maio/2017

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