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16/11/2017

Negação da História

Escrito por Mirian Lopes Cardia | Publicado: Terça, 21 de Novembro de 2017, 15h57 | Última atualização em Terça, 21 de Novembro de 2017, 15h56 | Acessos: 2029

Mesmo após fim da ditadura, Exército investigou movimento negro e o acusou de ‘denúncia infundada do racismo’ no Brasil

O primeiro governo civil pós-ditadura já cruzara metade do mandato, mas os militares seguiam com o aparato de vigilância aos movimentos sociais. Em 1988, às vésperas do 13 de Maio que marcaria o centenário da Lei Áurea, o Centro de Informações do Exército (CIE) produziu relatório confidencial sobre a mobilização dos negros pela análise crítica da data. Um anexo de seis páginas, intitulado “Abolição da escravatura — A distorção de um fato histórico”, expressava preocupação com a “denúncia infundada do racismo em nossa Pátria”. Abrigado no Arquivo Nacional, o documento fará parte da dissertação de mestrado em História de Lucas Pedretti, na PUC-Rio.

De 2013 ao início de 2016, o pesquisador trabalhou na Comissão da Verdade da Ditadura no Rio. O grupo descobriu, por exemplo, a perseguição do regime aos bailes black, que reuniam multidões nos subúrbios cariocas para dançar a soul music de James Brown. No mestrado, Pedretti decidiu continuar a investigação. Assim, chegou aos documentos sobre os cem anos da abolição.

Dois pontos chamaram a atenção do historiador. Primeiro, a repetição já no governo José Sarney dos mesmos métodos de investigação, modelos de relatório, linguagem e linha de pensamento adotados nas duas décadas de autoritarismo. Depois, a convicção dos militares em negar o racismo e impedir qualquer versão da História que não confirmasse o protagonismo da Princesa Isabel e de figuras como José do Patrocínio, Rui Barbosa, Castro Alves e Joaquim Nabuco — todos citados no Relatório Periódico Mensal (RPM), de 10 de maio de 1988. O Comando Militar do Leste chegou a agir com as polícias Civil e Militar do Rio para desviar a Grande Marcha da Abolição, realizada em 11 de maio, no Centro, do Panteão de Duque de Caxias, Patrono do Exército.

O RPM, assinado pelo general Tamoio Pereira das Neves, chefe do CEI, lembrava que, como parte dos festejos da abolição, a Serra da Barriga (AL), onde ficava o Quilombo dos Palmares, foi declarada patrimônio nacional. Em 20 de novembro daquele ano, seria inaugurado o Memorial Zumbi dos Palmares, em homenagem ao líder negro. E continuava: “Diversas entidades vêm se associando às comemorações governamentais... No entanto, nota-se, por parte da maioria, a preocupação em modificar a História, levantando suspeitas sobre os heróis nacionais da época”.

Para o Exército, por infiltração de partidos de esquerda, “as bandeiras do racismo e da marginalização do negro são desfraldadas”. Até o carnaval carioca foi envolvido: “Não foi por acaso que quatro escolas abordaram o tema da escravidão, saindo vencedora a Unidos de Vila Isabel com ‘Kizomba, Festa da Raça’, uma manifestação revolucionária negra contra os brancos”. O texto cita a então presidente da agremiação, Ruça, identificada pelos militares como “mulher do conhecido Martinho da Vila e comunista filiada ao PCB”. Por fim, o relatório acusa o Movimento Negro Brasileiro (MNB) de desenvolver e estimular o racismo “num país onde a miscigenação se processou sem traumas ao longo dos dois últimos séculos”.

Em 1951, mais de uma década antes da ditadura, o Brasil já se admitia racista. Naquele ano, foi promulgada a Lei Afonso Arinos, que transformou em contravenção penal o preconceito por cor ou raça. A Constituição de 1988 tornou o racismo crime inafiançável e imprescritível. Ano que vem a Abolição completa 130 anos. O 13 de Maio, hoje, é data de reflexão para o movimento negro e de celebração aos Pretos Velhos em religiões afro-brasileiras. O 20 de Novembro, data da morte do líder de Palmares, tornou-se dia de reverenciar homens e mulheres que lutaram — e ainda lutam — pela liberdade e pelo protagonismo negro.

Valeu, Zumbi!

Leia mais: https://oglobo.globo.com/sociedade/negacao-da-historia-22073409#ixzz4yhzyLThu

Fonte - O Globo -16/11/2017 4:30

 

 

ASCOM-Assessoria de Comunicação Social

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