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09/11/2017

Anais da ditadura A grande fogueira

Escrito por Mirian Lopes Cardia | Publicado: Quinta, 09 de Novembro de 2017, 16h36 | Última atualização em Quinta, 16 de Novembro de 2017, 16h40 | Acessos: 1683

Documentos inéditos mostram como o aparato de censura do regime militar usou empresas privadas para queimar programas de tevê, filmes, discos e livros proibidos – de Silvio Santos a José de Alencar

POR Mariana Filgueiras

o dia 25 de janeiro de 1977, uma comitiva de intelectuais liderada pela escritora Lygia Fagundes Telles desembarcou em Brasília para uma reunião com o ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel. Naquela terça-feira, o grupo conseguiu pôr na mesa de Armando Falcão um abaixo-assinado contra a censura, uma peça que ficaria conhecida como “Manifesto dos Intelectuais”.

Com mais de mil signatários, entre eles Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Otto Maria Carpeaux, o documento era a maior manifestação pública da classe artística desde a Passeata dos Cem Mil, em 1968, e repudiava “a sequência de inexplicáveis arbítrios” que proibiam peças de teatro, filmes, músicas, programas de tevê e livros.

O manifesto foi encaminhado à Polícia Federal dois dias depois, pelo próprio ministro, com a recomendação de que o órgão responsável pela censura se manifestasse. Nunca houve resposta. Naquela mesma manhã, funcionários do governo dedicavam-se ao exato oposto da atividade de abrandar a repressão intelectual: eles queimavam toneladas de obras culturais em um forno construído no Aeroporto Internacional de Brasília, a 15 quilômetros do local da reunião.

A coincidência de eventos revelou-se numa tarde de outubro deste ano, quando o historiador Lucas Pedretti pesquisava para sua dissertação de mestrado sobre a repressão a bailes de soul music no Rio de Janeiro dos anos 70. Logado no sistema do Arquivo Nacional, ele se deparou com documentos produzidos pela própria PF que comprovam a prática promovida pelo regime: são dezoito autos de incineração registrados. Além do forno de Brasília, outro forno de uma das empresas do grupo Votorantim também foi usado para transformar filmes, livros e programas de tevê em cinzas.

“Às 10h do dia 27.01.77, foi cremado no incinerador do Aeroporto Internacional de Brasília aproximadamente 3 000 kg de filmes, VT, revistas, livros, fitas magnéticas e discos, conforme solicitação do Ministério da Justiça – Departamento de Polícia Federal”, indica um dos autos de incineração encontrados pelo historiador.

O documento traz a lista completa do que foi para a fogueira: 436 filmes, desde clássicos como Spartacus, de Stanley Kubrick (1960) e Cleópatra, de Robert Mamoulian (1963), a chanchadas e filmes B, como 007 1/2 no Carnaval, de Victor Lima (1966), com Chacrinha e Costinha no elenco, e O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968). Dos cinquenta videoteipes queimados naquele dia, constavam desde gravações de programas de Silvio Santos, Hebe Camargo e Flavio Cavalcanti, até shows completos de Elizeth Cardoso e Ray Charles. Havia ainda 450 exemplares de O Pasquim e 71 discos contendo música árabe.

A maioria dos livros incinerados tinha títulos eróticos e populares como Chinesinha Erótica (21 exemplares), Cidinha, a Incansável (32) e De Prostituta a Primeira Dama (16). Outras 204 peças eram volumes do livro O Último Tango em Paris, de Robert Alley, inspirado no filme de Bernardo Bertolucci, de 1972. No total, os 3 mil quilos de material compreendiam 2 854 itens.

“Os documentos são a comprovação cabal de que, além de proibir a publicação e a circulação de livros, a ditadura militar brasileira também os queimava usando fornos de aeroporto e de empresas privadas. Em alguns casos, ainda os transformava em pastas de papelão”, citou Pedretti, enquanto mostrava a documentação a uma de suas professoras, a historiadora Luciana Lombardo, especialista em estudos sobre a censura no Brasil, num café do Largo do Machado, no Rio de Janeiro. “Como os documentos disponíveis no Arquivo Nacional representam uma parcela ínfima do que foi efetivamente produzido, é provável que tenham sido muitos mais”, completou.

Pedretti debruçou-se sobre os documentos, produzidos à época com o respaldo da Lei da Censura, mais especificamente pelo artigo 5o inciso II (“A distribuição, venda ou exposição de livros e periódicos que tenham sido proibidos, após a verificação prevista neste decreto-lei, sujeita os infratores, independentemente da responsabilidade criminal, à perda de todos os exemplares da publicação, que serão incinerados a sua custa”). Os autos registrados na coleção encontrada pelo pesquisador foram cumpridos entre 1976 e 1988 no Distrito Federal, no Rio Grande do Sul, no Ceará e em São Paulo. Em comum, tinham a descrição detalhada dos itens destruídos e o fato de usarem também incineradores de empresas privadas.

Além do aeroporto, houve queimas de livros, revistas e filmes entre 1977 e 1979 na Companhia de Papel e Papelão Pedras Brancas, empresa hoje inativa que à época pertencia ao Grupo Votorantim e ficava no município de Guaíba, no Rio Grande do Sul; na empresa Brasil Oiticica S/A, em Fortaleza, em 1976 e 1977, também desativada; na Riopel S/A, em São José do Rio Preto, em 1987; e na empresa Aparas São Caetano, assinado em Porto Alegre em 1988. Nesta última, os autos registram ainda a queima de documentos antigos da censura (memorandos, ofícios de Justiça, correspondências e “laudos de exame de material obsceno”) e até de figurinos de Carnaval.

Veja a matéria na íntegra acessando aqui

Fonte : Folha de São Paulo

Publicado por: ASCOM-Assessoria de Comunicação Social

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