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Arquivo Nacional sedia Seminário Reparação da Escravidão e os Ancestrais de Santa Rita

Escrito por Tassia Verissimo | Publicado: Sexta, 21 de Setembro de 2018, 19h21 | Última atualização em Quinta, 27 de Setembro de 2018, 15h02 | Acessos: 362

O auditório principal da sede do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, recebeu nesta quinta-feira, 20 de setembro, o “Seminário Reparação da Escravidão e os Ancestrais de Santa Rita”. O evento foi uma iniciativa do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO), e parceiros, com objetivo trazer ao público interessado o debate sobre a presença de restos humanos e artefatos da vida de ancestrais escravizados encontrados em locais remodelados urbanisticamente na região central do Rio de Janeiro, com destaque para as obras da nova linha do VLT carioca na região onde se dava o sepultamento de africanos recém-chegados na época da escravidão, antes da transferência para o Cemitério de Pretos Novos na Gamboa.
A programação teve início às 17 horas, com a exibição de filmes e reportagens sobre a diáspora africana e o Cais do Valongo. Em seguida foi realizada uma performance com Thaís Ayomide e Fernando Luiz.
Monica Lima, historiadora e coordenadora do Laboratório de Estudos Africanos (LEÁFRICA/UFRJ) e Elisa Larkin Nascimento, diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO) fizeram o discurso de abertura do seminário. Monica Lima relembrou que o Brasil é “o país que por mais tempo e em maior quantidade recebeu africanos sequestrados de sua terra de origem” para serem escravizados. Elisa Nascimento pontuou que o IPEAFRO considera que estudar a história dos africanos e da escravidão é importante não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Ela também falou um pouco sobre o trabalho do instituto e agradeceu aos parceiros da instituição.
A mesa de debates foi composta por Milton Guran, antropólogo e vice-presidente do Comitê Científico Internacional do Projeto Rota do Escravo da UNESCO; João Carlos Nara Jr., arquiteto e urbanista da Coordenação de Preservação de Imóveis Tombados da UFRJ e especialista na história de Santa Rita; Luiz Eduardo Alves de Oliveira (Negrogun), presidente do Conselho de Direitos do Negro do Estado do Rio de Janeiro e membro da Comissão Pequena África. A Mediação foi realizada por Flávia Oliveira, jornalista e membro do Conselho de Matriz Africana do Museu do Amanhã. O representante da Prefeitura do Rio de Janeiro, Antonio Carlos Mendes Barbosa, presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região Portuária (CDURP) foi convidado para participar, mas não pôde comparecer.

Milton Guran iniciou sua fala afirmando que “o Arquivo Nacional é por definição o repositório maior da memória nacional porque aqui são arquivados todos os documentos que marcam e sedimentam nosso percurso, então o fato de nós estarmos aqui reunidos para conversar sobre reparação aos povos de matriz africana e debater a situação de Santa Rita é uma conquista”. O antropólogo falou também sobre o “Projeto Rota do Escravo”, nascido há 25 anos e que compromete a UNESCO a debater profundamente, no campo político, cultural e científico a diáspora africana e o tráfico de escravizados. Ele ressaltou que considera esse nome é ruim porque perpetua a coisificação dos negros, mas que infelizmente não conseguem mudar. Por isso foi acrescentado ao projeto o subtítulo “Liberdade Resistência e Patrimônio” por demonstrar ser o legado da diáspora africana aos povos do mundo. Guran também comentou sobre a importância da candidatura e eleição do Cais do Valongo como Patrimônio da Humanidade.
João Carlos Nara Jr. fez uma apresentação sobre sua pesquisa a respeito de Santa Rita como um lugar de memória e abordou os temas: Freguesia de Santa Rita como subúrbio do século XVIII, a matriz de Santa Rita – a primeira igreja rococó da América, os pretos novos, o cemitério de pretos novos, o VLT e o futuro da região a partir da perspectiva de que se faz necessário o respeito à história dos escravizados que padeceram na região. O pesquisador explicou que “pretos novos” é a designação recebida pelos africanos que não foram abrasileirados porque faleceram ao chegar. Eles foram enterrados por perto da área de desembarque dando origem aos cemitérios de pretos novos.
Luiz Eduardo de Oliveira ressaltou que a Comissão Pequena África é composta majoritariamente por mulheres. Ele também apontou o fato de que quando começaram as obras do VLT na região de Santa Rita o movimento negro interveio com o intuito de parar as escavações para que eles pudessem ser ouvidos. A partir desse diálogo eles conseguiram entregar propostas e se posicionar. Eles vetaram determinados nomes para estações de VLT na região que homenageariam personalidades da história brasileira que o movimento considera racistas. Foram propostos nomes que tenham relação com a história da resistência negra. Também foi solicitado que seja construído um memorial na região, que o VLT tenha a obrigação de patrocinar os espaços e monumentos de valorização da cultura negra que existem na região e que dentro das estações passe a história da região da “pequena África” para a população usuária do serviço do VLT, entre outros pedidos.
Após as falas dos convidados foi aberto o microfone para perguntas do público e o evento foi encerrado com uma poesia de Milsoul Santos. O “Seminário Reparação da Escravidão e os Ancestrais de Santa Rita” teve transmissão ao vivo na página do Facebook e pode ser assistido aqui.

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